O falar cuiabano

Muitas coisas compõem a cultura cuiabana: a herança dos povos indígenas, a influência dos espanhóis da bacia do Prata e dos portugueses das bandeiras paulistas, dentre outros. Em seu livro “O falar cuiabano”, a doutora em educação, Cristina Campos, faz um apanhado histórico deste mosaico cultural que faz parte da cuiabania.

O livro, publicado pela Carlini e Caniato editorial, foi lançado em 2014 com um tiragem inicial de cinco mil exemplares. A obra divide-se em duas partes: A primeira trata dos aspectos históricos importantes na constituição da cultura na Baixada Cuiabana, valorizando os povos indígenas. A segunda começa com descrições técnicas de traços linguísticos que caracterizam o linguajar cuiabano, exemplificando-os.

Confira abaixo cinco dos muitos fatos que se encontram na obra:

1. Influência castelhana

Apesar de o Brasil ser o único país da América do Sul colonizado por portugueses, Mato Grosso é um território de fronteira e por isso, historicamente, recebeu influências das culturas vizinhas, de origem espanhola mesclada com a indígena, notadamente do Paraguai. Como o idioma é um elemento cultural, o dialeto cuiabano também recebeu a contribuição castelhana na sua constituição.

2. A hospitalidade cuiabana

A Baixada Cuiabana recebeu uma contribuição da cultura bororo na sua constituição muito mais do que admite. Até hoje, existe um grande preconceito com relação às culturas indígenas e negras, também historicamente fomentado pela igreja Católica. Ainda no fim dos anos 1960, as pessoas acreditavam que possuir artefatos indígenas em casa dava “azar”. Por outro lado, a identificação com o que vem “de fora”, de outros Estados e países, e sua excessiva valorização são características marcantes da Cuiabania, que também se traduz em sua famosa hospitalidade, colaborando com o seu processo de extinção.

3. Defuntos nas igrejas

Antigamente, os defuntos eram enterrados na área das igrejas, consideradas um campo santo. Quando maior o poder aquisitivo da família do morto, mais perto o defunto ficava do altar, no interior da igreja. Os cadáveres eram enterrados superficialmente, exalando um tremendo mau cheiro, sendo literalmente pisoteados pelos fiéis. No século XIX, a medicina declarou que os miasmas infectos eram prejudiciais à saúde e começou um movimento disciplinador para a criação e construção de cemitérios em áreas afastadas. A igreja Católica reagiu, indignada, e houve grande resistência por parte da população, agenciada pelas irmandades. Em Mato Grosso, somente depois de uma grande epidemia de varíola, no século XIX, é que os cemitérios foram efetivamente utilizados.

4. Maior evento teatral do séc. XVIII

Uma das maiores festas registradas – e o maior evento teatral do século XVIII – foi a chegada a Cuiabá do magistrado D. Diogo de Toledo Lara Ordenhes, em 1790, que durou 37 dias. Como era costume, houve bailes, com orquestra, ópera, cavalhadas, vinte representações teatrais de cordel português (comédias e tragédias), em tablado público. O evento propiciou a primeira crítica teatral no Brasil, pelo próprio D. Diogo. Também foi representada, em 24 de agosto, a primeira peça teatral escrita em Mato Grosso, pelo Capitão Joaquim Lopes Poupino.

5. O cuiabano de Liu Arruda

O falar cuiabano e comportamentos característicos da Cuiabania foram levados ao palco nos anos 1980 pelo ator Elonil Arruda (Liu Arruda), juntamente com seu parceiro Ivan Belém. O humor de Liu valorizava o dialeto local, misturando irreverência com pureza, sem apelos de vulgaridade, o que levou uma grande parcela da população cuiabana a sentir orgulho de suas raízes, revitalizando a sensação de pertencer a uma cultura.

(Da Assessoria)