Esta coletânea literária foi pensada com o objetivo de ampliar a reflexão e o discurso acerca dos (não) acidentes de trânsito que ocorrem no Brasil, porque a literatura nos traz a possibilidade de ir além do racional e mais próximos da alma humana. O fato de que esses contos não cheiram a álcool e pneu queimado é sinal de que conseguimos isso. Sim, há neles os acidentes de fato e os momentos etílicos, como não poderiam deixar de ser, mas em cada um desses contos há também o que está por trás desse descaso com a vida.

Nos contos dos mestres que agraciaram esta coletânea, Ana Miranda e Ignácio de Loyola Brandão, entramos em contato com um homem contemporâneo que está condenado, pela infraestrutura das cidades, a viver dentro de carros num trânsito insuportável – um acidente sempre a espreita – e podemos imaginar o que deve ter sido o passado em que vivíamos fora das armaduras sem tanto medo de atravessarmos a rua.

Nas histórias dos jovens e nem tão jovens autores de diversas partes do país, nos deparamos com uma ampla diversidade de situações: aquelas causadas pelo desamor, como a que envolve a filha de uma mãe ausente no conto de Bernardo Kucinski e um filho mal-amado e entediado que encontra a redenção na bebida em Bobby Baq. No conto de Paula Fábrio vemos o desamor para consigo e a inabilidade de aceitar os próprios erros surge como motor de um carro desgovernado. O sinistro diálogo interior entre aqueles do “sei que tô errado” é tema do conto impactante de Caco Ishak, que tem parentesco com a psicopatia alimentada por um pai-coronel que encobre os crimes do filho no conto de Luiz Roberto Guedes. A vida dos que sobrevivem aos acidentes é tema do conto suicida de Ítalo Ogliari e, também, de Deborah Kietzmann Goldemberg, que tece uma trama intricada sobre os destinos de vítimas, parentes e perpetradores para sempre moldados por essa experiência. Num dos momentos mais poéticos do livro, Douglas Diegues evoca a “triple frontera” paraguaia com o pior trânsito do mundo, onde os acidentes são tão corriqueiros que quase ninguém liga… exceto as yiyis que ainda amam a vida. A inocência dos últimos instantes de um rapaz prestes a ser atropelado surge no conto existencial de Bernardo Ajzenberg. A indignação é o tema do conto sobre “tudo o que não foi” (que inspirou o título da coletânea) na vida de uma jovem Patrícia de Carlos Eduardo de Magalhães, assim como o de Marcelino Freire que firma a imagem do carrão como grande vilão dessas histórias. A dor da perda, o luto e a possibilidade de libertação é tema do conto reflexivo e emocionante de Rubiane Maia. Finalmente, o fantástico ghost-conto de Wellington de Melo.

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Sobre o movimento “Não Foi Acidente”

O início
A ânsia por justiça foi a maior motivação de Rafael Baltresca, Nilton Gurman e amigos a criarem o movimento Não Foi Acidente.
Rafael perdeu sua mãe e irmã no dia 17 de setembro de 2011 e Nilton deu adeus a seu sobrinho Vitor alguns dias após seu atropelamento em 23 de julho do mesmo ano.
A exposição midiática desses casos somada à tristeza e apelo por justiça de inúmeras famílias foi um grande impulso à criação do movimento.
O movimento vem empreendendo, ao longo dos anos, debates, ações de conscientização e suporte a todos os movimentos de cidadania no trânsito.
Em 2014, o movimento Não Foi Acidente caminha na estruturação de uma ONG para poder continuar lutando por esta causa com mais força.

O que querem?
Mudar as leis de trânsito brasileiras, as quais têm tantas brechas e são tão permissivas. O movimento Não Foi Acidente lutará sempre por mais educação no trânsito; pela memória dos que já se foram e pela vida dos que ficaram.

Quem são
A Equipe Não Foi Acidente é formada por Rafael Baltresca, Nilton Gurman, Manuel Silvino Ferreira Fernandes, Maria Luiza Hausch, Lourdes Nunes, Gladys Ajzenberg, Rosmary Mariano, Ava Gambel e Vinicius Del Rio.
E, por todas as pessoas que têm apoiado a causa.

Os números da violência viária no Brasil:
O governo brasileiro gasta, segundo o Ministério da Previdência, 12 bilhões/ano e segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) o gasto é de R$ 40 bilhões/ano em uma guerra que enfrentamos diariamente no Brasil, as imprudências no trânsito. No que se refere às vítimas fatais da violência viária também temos dois números diferentes, segundo o Ministério das Cidades são mais de 40 mil vítimas por ano e a Líder Seguros que é responsável pelo pagamento do Seguro DPVAT afirma, esse número ultrapassa os 60 mil.
Mais da metade das indenizações por ocorrências no trânsito estão concentradas na faixa de 18 a 34 anos.
A estimativa do álcool e direção está em mais de 40%. No entanto, as pessoas bebem em determinado período, mas estão conectadas ao telefone celular 24 horas por dia, os desastres relacionados ao uso desta tecnologia pode ser o maior responsável pela violência viária nos dias de hoje.

Como funciona a lei hoje?
De acordo com os últimos casos, hoje, a pessoa que bebe, dirige e mata, pode ser indiciada por homicídio culposo – quando não teve a intenção de matar –, homicídio doloso – quando há a intenção –, ou se enquadrando em dolo eventual – quando se entende que o autor correu o risco de produzir este resultado. Se indiciado e condenado por homicídio culposo (o que acontece na GRANDE maioria dos casos) e o atropelador for réu primário, pode pegar de dois a quatro anos de prisão. A habilitação pode ser suspensa por um ano. Na prática, segundo a Constituição Brasileira, quando condenado até 4 anos de prisão, a pena pode ser convertida em serviços para a comunidade. Em outras palavras, nada acontece para quem mata no trânsito.
No indiciamento por homicídio doloso ou dolo eventual, o atropelador é julgado por júri popular e responde por mais de seis anos de reclusão, porém, tal processo vem sendo questionado e os advogados usam inúmeros recursos que podem arrastar o processo por mais de 10 anos.
O movimento Não Foi Acidente buscou ajuda na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e pretende instituir tolerância zero para a mistura álcool/direção e crime culposo de trânsito com pena mínima de 5 anos.

Lançamento na livraria Cultura

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